sexta-feira, 8 de junho de 2012

UMAR-A lança livro O Chicharro à Nossa Mesa



O Chicharro à nossa mesa é o nome do livro que a UMAR-Açores apresentou ao público no passado dia 2 de Junho, no Centro Cívico e Cultura de Santa Clara, e marca marca o encerramento do projecto Caminhos em Terra e no Mar - As Mulheres da Pesca nos Açores.

A UMAR- A partiu para este trabalho de pesquisa e recolha de receitas com o objectivo de  abranger todas as ilhas e obter o máximo de receitas possíveis de chicharro. E porquê o chicharro? Porque se trata actualmente de uma espécie de valor comercial baixo, mas que no passado, não muito longínquo, teve uma importância socioeconómica bastante considerável.
Para além de então ser pescado e consumido em abundância, chegou a ser chamado de comida de pobre, o chicharro era muitas vezes utilizado como moeda de troca com produtos hortícolas, por exemplo (uma pratica que no presente parece estar a regressar como forma de contornar ou amenizar a crise).
Assim e para além de procurar contribuir para a valorização desta espécie em particular este pequeno livro/guia – se assim o quiserem chamar,  pretende também recuperar parte da tradição da cultura alimentar do povo açoriano e incentivar para o consumo do pescado.
Dai que apareça neste livro também um artigo escrito por um nutricionista, Dr. Nuno Maia Velho Cabral, que fala sobre a importância  do consumo de peixe para a saúde. Um artigo com um titulo muito feliz  Engorde a sua saúde comendo chicharro” e que prova a importância desta espécie em particular em termos nutricionais.
Tentou-se também no contexto deste trabalho dar resposta as algumas questões:
Quantas formas há de cozinhar chicharro? Em que ilha é esta espécie mais consumida? Existem diferenças na preparação e no tempero entre as ilhas? O consumo de peixe é hoje maior ou menor do que outrora? Porquê? Quem é portador/a das receitas mais antigas? A quem cabe a tarefa de cozinhar? No seio da família quem cozinha com mais frequência? São apenas algumas das questões para o qual procuramos obter respostas.
Ao longo do livro vão verificar que de facto existem - não 1001 maneiras  como o bacalhau - muitas formas diferentes de confeccionar chicharro e que vão desde o mais comum que é chicharro frito com molho vilão até receitas “gourmet” ou da alta cozinha, passando por segredos familiares até agora bem guardados, e que em boa hora resolveram partilhar connosco. E existem sim diferenças entre ilhas nos temperos e formas de confeccionar as mesmas receitas. Este é aliás o motivo pelo qual aparecem algumas receitas repetidas, como o mesmo nome, nas diferentes ilhas.
Os resultados obtidos relativamente ao consumo e às questões de género, ou seja que respeitam à igualdade entre homens e mulheres, são publicados no final do livro.  Através de uma pequena ficha com perguntas que acompanhou a recolha de receitas ficámos a saber, por exemplo, que a grande maioria das pessoas entrevistadas, cerca de 70% , considera que o acto de cozinhar é próprio de ambos os sexos, ou seja é igualmente próprio de homens e mulheres. Isto talvez possa demonstrar já alguma mudança de mentalidade, no entanto logo a seguir perguntávamos quem é que em casa cozinhava com mais frequência... e aí o universo feminino surge destacadíssimo com um total de 86,1%. Por outro lado, quando falamos de restauração, a opinião de quase metade das pessoas é que são principalmente homens a desempenhar a função de “chefs” de cozinha.
Uma outra questão para a qual procuramos obter respostas através dos inquéritos dizia respeito à origem da receita. Mais de metade referiu que a sua receita era de origem familiar, ou seja que tinham aprendido a receita com a mãe (maioria dos casos) avó, tias, irmãs. A opção origem tradicional também se destacou uma vez que para algumas das pessoas auscultadas as receitas “vem de antigamente” e tem origem na sua ilha ou localidade.
O facto de a maioria das respostas identificar a origem da receita no seio da família, comprova o importante papel desta, no geral, e dos seus elementos femininos, em particular, na transmissão de saberes e competências ao longo de gerações, no caso concreto no que se refere à cultura na sua componente gastronómica.
Estes e outros resultados estão apresentados de forma simples e resumida no final do livro. De salientar que não se trata de um estudo exaustivo, antes dá a conhecer alguns resultados curiosos que seriam interessantes aprofundar num trabalho futuro e especifico.
Uma ultima nota para referir que ao todo foram compiladas 160 receitas, das quais 134 de chicharro e as restantes de espécies variadas.  A maioria foi recolhida nas comunidades piscatórias junto de mulheres ligadas ou com relação com a pesca, directa ou indirectamente. Registam-se também receitas facultadas por homens, alguns trabalhadores da pesca, outros ligados à área da restauração ou da comercialização, e outras ainda fornecidas por pessoas que não tendo relação alguma com a pesca quiseram contribuir com os seus saberes e vontades. Isso explica também o surgimento de outras receitas, pelo facto das pessoas terem demonstrado vontade em partilhar as suas especialidades e os seus segredos culinários.
As receitas de chicharro são apresentadas por ilha e por ordem alfabética e as outras  são apresentadas separadas, já sem ser por ilha, mas também por ordem alfabética de forma a facilitar a consulta.

Laurinda Sousa

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Filme “Mulheres na Pesca” apresentado no grupo central


Estreado em Março deste ano, em Rabo de Peixe e em Ponta Delgada, o filme documentário “Mulheres na Pesca” de Maria Simões, uma co-produção de Descalças Cooperativa Cultural e UMAR-Açores, apresenta-se no próximo fim de semana em três ilhas do grupo central, com a presença da realizadora.

Ao longo de 55 minutos, Maria Simões empreende uma viagem em busca das mulheres na pesca, dos Açores, tendo filmado em S. Miguel, Pico, Terceira e Faial ao longo do não de 2011.
Em São Jorge, o filme recebeu o interesse do programa Açores entre Mares pelo que marcará o encerramento deste programa na ilha de São Jorge, no dia 8, pelas 20h30, no auditório municipal de velas.
No Pico, o filme estreia no dia 9 de Junho, Sábado, pelas 18h, no auditório municipal das Lajes do Pico.
Por último, o filme será apresentado no auditório do DOP, na Horta, ilha do Faial, pelas 16h30 de domingo, dia 10 de Junho.
Para além da presença da realizadora nestas sessões, está confirmada também a presença de algumas das protagonistas do filme Mulheres na Pesca que se disponibilizaram para acompanhar e fomentar as conversas que se seguirão após o visionamento do filme.
Contando com o interesse também demonstrado pelas ecotecas dos Açores, o filme está já disponível para ser visionado (por marcação) na ilha Terceira. Entretanto, ainda este mês, o filme estará disponível em todas as Ecotecas dos Açores.
A entrada é livre.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Lúcia Silva vendedora ambulante da ilha do Pico


Lúcia Silva é vendedora de peixe ambulante e vive na bonita ilha do Pico. É casada com um pescador e mãe de um menino de 4 anos, a embarcação da sua família tem o nome de “Leonilde e Maria”.
Após uma estadia de 4 anos nos E.U.A. regressou ao Pico e foi a partir daí que a sua ligação ao sector da pesca se tornou mais forte. O seu marido tinha um barco e Lúcia sempre que era necessário auxiliava em algumas tarefas.
Porém foi há uns anos atrás, quando tirou a carta de condução que, em conjunto com o seu marido decidiu vender peixe pela ilha. As suas tarefas diárias passam pela preparação do peixe que depois é encaixotado e passado na lota e depois disso, por volta das 08h00 da manhã começa a vendê-lo pelas várias freguesias da ilha. Feito todo este trabalho, Lúcia termina o dia lavando a carrinha, as caixas do peixe entre outras coisas, deixando tudo preparado para o próximo dia.
Quando questionada sobre se alguma tinha sido discriminada, Lúcia mencionou que inicialmente as pessoas criticavam a sua escolha, mas ela nunca se importou, pois a venda do peixe permite-lhe realizar uma tarefa e contribuir para o bem-estar económico da sua família.
Acerca das medidas tomadas pelo Governo relativamente ao sector piscatório, segundo Lúcia prejudicam muito a vida dos pescadores. Em alguns casos são atribuídos subsídios para a construção de embarcações a pessoas que não vivem apenas da pesca, que poucas vezes vão ao mar, e cujas embarcações estão a maioria do tempo em terra.
No final do ano de 2010 Lúcia Silva tornou-se sócia da Ilhas em Rede – Associação de Mulheres na Pesca nos Açores e é com grande satisfação que faz parte desta “família” e que, em conjunto com todas as associadas das várias ilhas dos Açores, dá voz ao trabalho desenvolvido pelas mulheres da pesca, nomeadamente em terra.

Texto de Joana Medeiros (publicado no Jornal Açoriano Oriental - Suplemento Voz dos Marítimos, em 21 de Abril de 2012)

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Cláudia Sofia Esteves, pescadora da ilha do Faial


Cláudia Sofia é uma grande pescadora da bonita ilha do Faial. O seu gosto pela pesca sempre esteve presente ao longo da sua vida, porém foi sendo adiado, pois durante muito tempo trabalhou como empregada de café. Contudo aos 34 anos decidiu que era altura de, em conjunto com o seu companheiro, comprar um barco e dedicar-se inteiramente à pesca.
Cláudia Sofia tirou a carta de arrais local em 2010 mas, numa altura em que conquista um sonho antigo, tem um acidente a borda da sua embarcação e a partir daí a sua vida acaba por tomar um rumo diferente do que sonhara. Tudo aconteceu numa tarde como muitas outras, em que Cláudia Sofia pescava lulas com o seu companheiro, porém aquando de uma vistoria da polícia marítima, e enquanto dava a volta à roleta para que não perdesse o arame, acaba acidentalmente ferida numa mão.
Apesar das adversidades da vida, e da dificuldade que tem em trabalhar com a mão acidentada ela não desiste e contínua com mais cuidados mas com a mesma força e dedicação. Ela trata de toda a parte administrativa do barco, prepara o isco, faz a lota e ainda tem tempo para bordar e fazer artesanato.
Neste momento o seu desejo era conseguir apoio por parte do governo para conseguir adquirir uma carrinha para vender peixe, o que segundo ela faz muita falta sobretudo para os mais idosos que não têm tantas capacidades de se deslocarem a mercados e supermercados para comprar peixe fresco. E até porque não devemos esquecer da importância deste alimento na saúde de todos.
Quanto á sua participação na Associação de Mulheres na Pesca – Ilhas em Rede para Cláudia Sofia é muito gratificante ver o trabalho que tem sido desenvolvido por todas e cujo principal objetivo é dar voz a grandes mulheres de trabalho e conquista.

Entrevista realizada pela socióloga e sócia da Ilhas em Rede: Joana Medeiros
Publicada na página “Voz dos Marítimos” do Jornal Açoriano Oriental – 24 de Março de 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Estreia Documentário "Mulheres na Pesca"

A UMAR-Açores e Descalças, cooperativa cultural, estreiam este sábado, dia 10 de Março, o documentário "Mulheres na Pesca" de Maria Simões.

Estão previstas duas sessões, uma primeira a ter lugar às 17h30 no Cine -Teatro Miramar, em Rabo de Peixe, e outra às 21h30 na Casa Descalça, em Ponta Delgada.

Maria Simões faz a sinopse da peça, "Antigamente dizia-se que uma mulher no porto era uma prostituta. Hoje, já não é assim. As mulheres na pesca nos Açores representam uma percentagem importante no sector e procuram a sua cada vez maior visibilidade, desejando a igualdade no trabalho. Encontram-se em quase todas a tarefas da pesca (desde os preparativos em terra, à extração, à compra e venda, à indústria conserveira, à investigação), em quase todas as ilhas, e há quem as divida entre pescadoras de terra e de mar. Durante um ano, andei à pesca de algumas destas mulheres nas ilhas do Pico, Faial, Terceira e São Miguel, sem nunca ter entrado no mar, como se , desta vez, ficasse, para sempre, prisioneira na doca".

Realizado ao longo de 2011, este documentário, uma co-produção da UMAR-Açores e Descalças, cooperativa cultural, com a duração de 55 minutos, contou com o apoio da SRTSS -através da extinta DRIO - Direcção Regional da Igualdade de Oportunidades, Corredor, associação cultural e RTP e RDP-Açores.

L.S.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Quem decide as tempestades?

Um grupo de mulheres da pesca nos Açores apresentou em Lisboa a peça de Teatro Fórum "Quem decide as tempestades", inserido no Ó PRIMA - Encontro de Teatro d@ Oprimid@ (TO) que decorreu entre 16 e 21 de Fevereiro.

A peça apresentada aborda a temática do trabalho feminino no sector da pesca, trabalho não remunerado e pouco ou nada valorizado: "A Rosa é gameleira. Desde que as suas mãos se lembram de trabalhar, constrói gamelas para o marido levar para o mar. São horas de trabalho não pago. Um dia pede para receber pelo trabalho que faz. Não consegue. Outro dia farta-se e decide tirar a cédula marítima para poder ir para o mar e receber pelo seu trabalho. Mas o marido não deixa…

Já apresentada anteriormente nas ilhas Terceira, Faial e Pico, esta peça é resultado de oficinas de Teatro d@ Oprimid@ realizadas nos últimos dois anos pela UMAR-Açores, em parceria com Descalças Cooperativa Cultural, no âmbito do projecto “Caminhos em Terra e no Mar – As mulheres da Pesca nos Açores”.

A situação de discriminação de género no sector das pescas, realidade de muitas mulheres açorianas, contada e encenada pelas próprias, despertou a curiosidade de quem se deslocou à Casa da Achada, no centro de Lisboa, para assistir à peça. O facto de constituir uma realidade desconhecida para a maioria do público presente levou a que no fórum e na mesa redonda subsequente fossem colocadas muitas questões e discutidas diversas soluções para os problemas identificados.

Para as mulheres/actrizes que se deslocaram a Lisboa , a experiência saldou-se numa mais valia porquanto permitiu dar mais visibilidade e valorização ao trabalho das mulheres da pesca nos Açores.

O Teatro d@ Oprimid@ consiste numa metodologia desenvolvida por Augusto Boal, no Brasil, e constitui um precioso e eficaz instrumento de empowerment e estimulo à participação activa e consciente dos/as cidadãos/ãs na busca de soluções para os problemas que os/as afectam bem como na construção da própria sociedade.

Laurinda Sousa

UMAR-Açores

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Cátia Botelho, administrativa no setor das pescas

Cátia Alexandra Botelho de 29 anos é natural da ilha de São Miguel e trabalha como administrativa no Sindicato Livre dos Pescadores Marítimos Profissionais e Afins dos Açores de Ponta Delgada.

O seu trabalho passa pelo atendimento geral aos sócios, ao preenchimento de documentos, candidaturas, contabilidade não organizada, entre outros.

Para Cátia Botelho é muito gratificante conseguir resolver e ou atender os associados/as que muitas vezes não sabem o que fazer ou como fazer determinadas coisas, acabando por ser um guia para muitos deles.

Cátia, contacta diariamente com homens da pesca, apesar de muitas mulheres de armadores já tratarem da parte burocrática da vida do mar. Devido a este contacto regular refere que acaba por criar uma relação de amizade e até de cumplicidade com muitos pescadores. Segundo ela, passou a fazer parte da “família” deles e eles da dela, ou seja, os problemas de muitos sócios/as são vividos de forma especial, devido aos laços que se criam.

Quando questionada sobre a situação das pescas actualmente, Cátia menciona que neste momento a situação é agonizante. São tantos os problemas e dificuldades, para além dos problemas de rendimentos mais baixos com a venda do peixe e despesas cada vez maiores, a burocracia é enorme para uma simples candidatura são necessários imensos documentos.

Em relação as medidas do Governo para o sector das pescas, são cada vez mais escassas e quando as há são mais para prejudicar do que para ajudar os pescadores. É o caso do fundopesca que já deveria ter sido activado, e para além disso são os atrasos nos pagamentos dos subsídios.

São muitos os desabafos que Cátia ouve diariamente devido à falta de rendimentos, e de apoios considerados como imprescindíveis neste momento de crise que o sector das pescas atravessa.

Como forma de tentar solucionar alguns destes problemas, segundo Cátia Botelho primeiramente deveria existir mais união entre os pescadores/armadores, por que se assim fosse juntamente com as associações de pesca que existem teriam força para fazer ouvir a sua voz. Depois o responsável pelas pescas nos Açores deveria desburocratizar o sector facilitando assim a vida a quem vive do mar. Ser mais justo no apoios a dar, e não beneficiar uns prejudicando outros.

Artigo de: Joana Medeiros

Jornal Açoriano Oriental, página Voz dos Marítimos, 18 de Fevereiro 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mulheres da Pesca nos Açores apresentam TO em Lisboa

Um grupo de mulheres da pesca nos Açores apresentam em Lisboa a peça de Teatro Fórum "Quem decide as tempestades", inserido no Ó Prima - Encontro de Teatro do Oprimido que decorre entre 16 e 21 de Fevereiro.

A peça, já apresentada na Terceira, Faial e Pico aborda a temática do trabalho feminino no sector da pesca, trabalho não remunerado e pouco ou nada valorizado: "A Rosa é gameleira. Desde que as suas mãos se lembram de trabalhar, constrói gamelas para o marido levar para o mar. São horas de trabalho não pago. Um dia pede para receber pelo trabalho que faz. Não consegue. Outro dia farta-se e decide tirar a cédula maritima para poder ir para o mar e receber pelo seu trabalho. Mas o marido não deixa…

Esta sessão de Teatro Fórum terá lugar no domingo, dia 19 de Fevereiro pelas 21h na Casa da Achada.

São objectivos do Ó Prima, que abrange formação e visualização de documentários e outras apresentações de Teatro Fórum:

- Aproximar e formar ativistas com ferramentas do Teatro do Oprimido (TO).

- Criar um espaço onde se possam ver peças já construídas com grupos de TO.

- Permitir, nomeadamente a praticantes de TO, discussão política e teórica sobre sistemas de opressão e exemplos de intervenção.

- Criar um espaço de partilha entre diferentes grupos de TO.

- Fazer chegar aos movimentos sociais pessoas que fazem teatro.

Este encontro é promovida por um conjunto de ativistas dos Açores, Lisboa, Porto e Pombal, associados a diferentes coletivos, organizações e projetos, entre os quais a UMAR-Açores, UMAR nacional, Descalças Cooperativa Cultural, Movimento 12 de Março, entre outros.

L.S.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Adriana Luz, jovem pescadora e mulher da pesca da Graciosa

Iniciamos o novo ano entrevistando uma jovem pescadora da ilha Graciosa. Adriana Luz é filha e neta de pescadores e desde pequena sempre esteve ligada à pesca.

A princípio costumava passear com o seu pai numa lancha de recreio e refere (rindo) que deve ser por isso que não enjoa quando vai para o mar.

O seu gosto pela pesca foi aumentando, o seu pai passou a dedicar-se totalmente a este sector, e a certa altura Adriana decide, com o apoio dos pais tirar a cédula marítima, e aos 18 anos já tinha cédula e podia ir para o mar como pescadora.

A partir daí, sempre que estava disponível inscrevia-se em outros cursos para pescadores, e agora aos 21 anos, Adriana tem o curso de arrais de pesca local e condução de motores. E neste momento está inscrita no curso de GMDSS.

Embora goste do trabalho na pesca, Adriana não se dedica totalmente a esta profissão. Está a tirar o curso de Higiene e Segurança Alimentar (nível V) e o seu desejo para o futuro é que um dia possa trabalhar como inspectora no ramo da pesca.

Quanto às medidas que são aplicadas no sector piscatório, Adriana tem uma opinião bastante vincada. Considera que em alguns casos são tomadas medidas injustas para os pescadores, como no caso dos subsídios. Não se tem em conta o factor de instabilidade do sector.

Em termos de fiscalização têm sido feitos muitos progressos, por exemplo quanto á segurança no trabalho. Porém também é fundamental garantir uma maior qualidade do pescado, através de um maior empreendimento, por exemplo, existência de mais entrepostos de frio nas ilhas dos Açores.

Adriana Luz é uma das mais jovens sócias da Ilhas em Rede e segundo ela é um prazer fazer parte de uma associação que luta pelo reconhecimento e valorização do papel das Mulheres na Pesca.

Texto: Joana Medeiros - Socióloga

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Mulheres da pesca, porta-vozes do sector

As mulheres da pesca nos Açores assumem-se cada vez mais como porta-vozes dos problemas que afectam o sector. No telejornal da RTP-Açores do passado dia 13 de Janeiro destaque para uma entrevista com Maria do Espírito Santo Ferreira, armadora do barco "Lua Cheia", aos 03.36 minutos. O tema está relacionado com a penhora do dinheiro da venda de pescado a quem tem dividas, por parte das Finanças. Eis o link:

http://www0.rtp.pt/multimediahtml/video/telejornal-acores/2012-01-13

L.S.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Entrevista a Lídia Ferreira, pescadora na ilha de São Jorge

Lídia Maria Ferreira é uma pescadora da bonita ilha de São Jorge, freguesia da Urzelina.

Ao contrário de algumas mulheres da pesca entrevistadas anteriormente, a sua ligação com o sector piscatória iniciou-se há poucos anos.

Lídia Ferreira anteriormente desempenhava outras tarefas, trabalhava com o marido na carpintaria, mais tarde cortou lenha que era vendida a fábricas e cooperativas. Foi sempre uma grande trabalhadora, mãe e esposa.

O marido de Lídia gostava de pescar e foi daí que surgiu a ideia de irem ao mar, inicialmente praticaram pesca desportiva. Com o passar do tempo tiraram cédula marítima e arranjaram um barco maior “Família Sousa”.

Quanto ao trabalho que desempenha na pesca, Lídia Ferreira para além de ir ao mar, faz aparelhos de pesca, prepara o engodo e a isca e trata da administração do barco.

Lídia tem três filhos e todos eles gostam de ir ao mar. O seu filho mais velho, sempre que é necessário vai pescar com o pai e a mãe, gosta muito de ser pescador e não faz desta actividade uma profissão devido à instabilidade e falta de salários fixos.

Quando questionada sobre discriminação, Lídia refere nunca ter sido alvo, muitas pessoas consideram-na corajosa e aventureira. Lídia menciona um episódio engraçado em que de madrugada antes de ir para o mar, também passa no café, como muitos pescadores homens e isso nunca foi criticado.

Lídia faz parte da Ilhas em Rede, Associação de Mulheres na Pesca nos Açores e segundo ela tem sido uma experiência muito enriquecedora e uma ótima forma de dar visibilidade ao trabalho das mulheres da pesca.

É muito importante que as mulheres se façam representar em encontros e debates, que mostrem o seu interesse em matéria da pesca e mantenham-se informadas acerca de legislação, despachos e portarias.

Entrevista: Joana Medeiros

Foto: Laurinda Sousa

Publicada no Jornal Açoriano Oriental, Página Voz dos Marítimos, 17 de Dezembro de 2011

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

As Mulheres da Pesca e a estratégia de mudança do Inquérito Apreciativo

De visita aos Açores, surgiu a oportunidade de estar em formação com as mulheres da pesca, a convite da UMAR - Açores e em parceria com Descalças, Cooperativa Cultural. Participaram na formação, que decorreu na sede do Sindicato de Pescadores em Rabo de Peixe, elementos da Ilhas em Rede, Associação de Mulheres da Pesca nos Açores bem como elementos da UMAR. Ao todo formámos um grupo de 9 pessoas.

Como objetivo, a oficina de trabalho pretendia potenciar a identificação de recursos internos que possibilitam a mudança no sentido desejado. A metodologia baseou-se em dinâmicas de grupo e entrevistas a pares. Repartido pelas tardes de 6 e 7 de Dezembro, num total de 6 horas de formação, percorreu-se o Ciclo do Processo Apreciativo (Cooperride http://appreciativeinquiry.case.edu/ ; Kelm, http://appreciativeliving.com/about-jackie-kelm/).

O Inquérito Apreciativo é uma estratégia para a mudança, alternativa ao clássico “resolução de problemas”. Consiste no estudo e exploração do que dá vida aos sistemas humanos e no estudo daquilo que já funciona bem. Procura o “melhor do que é” para alcançar os sonhos e as possibilidades do que “poderia ser”.

Baseados no processo AIA - APRECIAR | IMAGINAR | AGIR
Apreciar : levar as presentes a identificar situações em que se sentiram competentes num determinado momento;
Imaginar : Potenciar uma visão comum do que seria o melhor que poderia acontecer àquele grupo e individualmente, no que respeita à sua ocupação;
Agir: Identificar as fases necessárias para se transitar da visão ideal, para o real possível e identificação dos passo que podem ser dados a partir daquele momento.

Depois de serem falados os bons momentos que cada uma identificou nas suas vidas, foram imaginadas as condições ideais para a atividade da pesca – IMAGINAR, onde surgiu:

- “Peixe no mar”; “bom tempo”; “não se magoarem”; “irem e virem de boa saúde”; “ganhar dinheiro para pagar dívidas”.
Estas caraterísticas desejadas surgem em contraponto àquilo que identificaram como ameaçador à vida da sua comunidade:
- “maus critérios na atribuição de licenças de pesca”; “má gestão das quotas de pesca”; “falta de informação científica, perceptível pela comunidade de pescadores”
No AGIR, surgem as sugestões vindas da partilha de ideias, ideais e valores de cada uma das presentes:
· “união, reunir informação”;
· “alicerçar a informação em termos políticos|associativos”;
· “trabalhar com as associações masculinas”;
· “divulgar as coisas que já se sabem”;
· “manter a cabeça fria”;
· “participar nas reuniões e tomar a iniciativa de reunir outras instituições”;
· “escolher temas que atraiam os envolvidos e promoção de workshops breves com informação legislativa”;
· “ir de ilha em ilha”.

Este trabalho foi pontuado com sumos, bolos caseiros/regionais e café…uma delícia a troca das palavras, dos cheiros e dos sabores.
A atividade final - “o naufrágio” – foi a demonstração prática de que cada uma das presentes se envolveu no workshop. Algumas descobriram coisas novas …outras renovaram a crença nas suas forças e qualidades. Todas se sentiram mais próximas.
A esta distância fica-me a importância de se desenvolver mecanismos de defesa e alternativas ecológicas que respeitem a comunidade tradicional, assentes na gestão adequadas das quotas de peixe, onde os lucros suprem as necessidades económicas de todos os envolvidos.


Sugiro duas ideias a serem exploradas: Turismo e Gastronomia.
Turismo: desenvolver atividades que envolvam turistas interessados em ver a pesca artesanal, quer ao vivo e a cores, quer num museu que reúna as alfaias da pesca, como por exemplo: rede de enchelevar, gamelas, ou a diferença entre carapau e chicharro.
Gastronomia: reunir e divulgar receitas típicas da comunidade, seja em forma escrita, seja com atividades de mostras gastronómicas…gostaria de provar peixe cozinhado e temperado à moda de Rabo de Peixe.
Aprendi muito com as presentes e aumentei a minha visão dos recursos para uma vida melhor em comunidade.


Ana Caetano
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Ouvindo as Vozes das Comunidades Piscatórias


Inovador na forma e no conteúdo, workshop bilingue juntou à mesma mesa cientistas locais e estrangeiros e homens e mulheres da pesca nos Açores

Incentivar a discussão entre investigadores/as e membros das comunidades piscatórias, foi o grande objectivo da conferência “Explorar a Riqueza das Comunidades Piscatórias ouvindo as sua Vozes” que decorreu entre 21 e 24 de Outubro nas ilhas Terceira e São Miguel.

O carácter inovador da conferência, onde participaram cientistas da Dinamarca, Islândia, Espanha, Reino Unido, Polónia e EUA, começou pela prévia auscultação de pessoas e associações ligadas à pesca nas várias ilhas, sobre os temas mais pertinentes a abordar: Política de Pescas; Valorização e Comercialização de Pescado; Formação e Educação; Monitorização e Gestão de Stocks e Pesca Turismo.

Durante o encontro cada tema foi debatido em mesas redondas, com métodos interativos, em inglês e em português, de forma a incentivar a partilha e o debate de opiniões, e cada grupo contou com o apoio de facilitadores/as, tradutores/as e redactores/as.

Na Terceira os trabalhos dividiram-se entre o Pólo Universitário da Terra Chã, e São Mateus e os/as participantes tiveram oportunidade de se movimentar por entre as mesas e posters contribuindo com a sua experiência e saber para aprofundar os temas em debate.

A PCP foi um dos assuntos que maior interesse e discussão provocou, nomeadamente a questão relacionada com as Quotas Individuais Transferíveis (QIT) e o impacto negativo que a concentração das quotas de pesca em grande companhias pode ter, nomeadamente o desaparecimento de pequenas comunidades costeiras como já se verifica na Dinamarca.

Ao nível das outras temáticas concluiu-se que uma monitorização/gestão de stocks eficiente só é possível estreitando a comunicação entre o nível de gestão europeu com o nível de gestão local, até ao nível das comunidades.

As ideias saídas do painel Educação e Formação apontam no sentido da valorização das comunidades piscatórias, na validação de competências dos seus membros e na importância da integração do mar e da pesca em todo o percurso da educação formal.

No Painel sobre Comercialização e Valorização do Pescado foi evidenciada a necessidade de uma melhor repartição das mais valias do pescado e co-responsabilização de todos/as: melhor tratamento do pescado a bordo; presença de veterinários/as e classificadores/as na lotas e seletividade na aquisição por parte dos/as comerciantes.

Relativamente ao tema pesca turismo e tendo em conta as experiências piloto que actualmente decorrem nos Açores, alertou-se para a importância do desenvolvimento de um estudo profundo e abrangente que aponte directrizes sobre como melhor integrar e desenvolver essa actividade na região.

De salientar ainda o contacto directo dos/as cientistas estrangeiros com a realidade local proporcionado pela visita às comunidades piscatórias de Ribeira Quente e Rabo de Peixe, em São Miguel. Enquanto na primeira visitaram o porto e o estaleiro, em Rabo do Peixe reuniram com mulheres da pesca, membros do núcleo de ilha da Associação Ilhas em Rede, com quem trocaram ideias e preocupações.

O Congresso financiado pela SRCTE, e na sequência do projecto EDUMAR, foi organizado em parceria pelo Grupo de Biodiversidade da Universidade dos Açores, RCE - Açores, UMAR-Açores e Associação para a Defesa do Património Marítimo dos Açores.

Texto e foto: Laurinda Sousa (UMAR-Açores)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sectores Marítimos: as mulheres cada vez mais presentes


No imaginário colectivo, o meio profissional marítimo foi durante muito tempo associado a um universo masculino. O papel e o estatuto das mulheres nas actividades marítimas evoluíram consideravelmente ao longo dos últimos 20 anos, em matéria de estatuto jurídico, de acesso ao emprego, mas também de visibilidade. Desde 2009, o projecto FEMMAR da Universidade de Nantes reúne investigadores de diferentes disciplinas para estudar os processos sociológicos, jurídicos, económicos e geo- gráficos relacionados com estas evoluções... e compreender os paradoxos que daí possam resultar.

A Universidade de Nantes, em França (Pays de la Loire), desen- volve numerosas áreas de formação e de investigação especiali- zadas no domínio marítimo. É portanto com toda a naturalidade que uma equipa pluridisciplinar composta por juristas, geógra- fos, sociólogos e economistas decidiu estudar a evolução do papel e do estatuto das mulheres nas actividades marítimas.

O seu projecto de investigação, denominado FEMMAR, foi lançado em 2009 com um financiamento de três anos por parte da região Pays de la Loire. O projecto apresenta igual- mente uma dimensão europeia graças a uma colaboração com universidades inglesas, bascas e galegas.

«O objectivo deste estudo era o de verificar em que medida as coisas evoluíram relativamente à imagem antiquada da mulher de mari- nheiro que espera em casa pelo seu marido viajante, explica Pierrick Olivier, um dos investigadores. Além disso, em alguns sectores marítimos, as mulheres reúnem-se em associações de que apenas se ouve falar em caso de crise. Um tal projecto de investigação permite-lhes exprimirem-se fora dos períodos de crise.»

Um inquérito estatístico

No centro do projecto: um inquérito qualitativo cujo objectivo era o de fazer o balanço sobre o lugar das mulheres no seu meio profissional, dando uma atenção particular aos problemas com

que se debatem e às possíveis soluções. O inquérito foi apoiado por várias associações profissionais e femininas, que difundiram o questionário junto dos seus membros. O inquérito em papel foi complementado por entrevistas individuais.

O estudo permitiu obter 408 respostas analisáveis de mulhe- res entre os 18 e os 78 anos. As respostas vêm maioritaria- mente de França (81 %), sendo as restantes da fachada atlântica da Espanha. Do ponto de vista dos sectores de acti- vidade, a repartição é a seguinte: 33 % das inquiridas trabalham no sector das pescas marítimas, 18 % no ramo conquícola

da aquicultura, 32 % na marinha mercante e 17 % na marinha nacional francesa. Obtiveram-se respostas de mulheres que trabalham noutros sectores marítimos, mas em número dema- siado reduzido para que sejam analisáveis de um ponto de vista estatístico. Dentre as mulheres interrogadas, mais de metade possui um estatuto de trabalhador assalariado (55 %), as restantes são chefes de empresa (16 %) e esposas colabo- radoras (9 %). 20 % são não remuneradas. Mais de um quarto das mulheres inquiridas navegam.

Dentre as que trabalham no sector da pesca, 45 % têm respon- sabilidades na gestão da empresa, 41 % na produção e 22 % na actividade comercial. Apenas 11 % navega.

O inquérito debruçou-se sobre numerosos aspectos da vida profissional dessas mulheres. Apenas nos referiremos a alguns deles.

O primeiro é a sua confiança relativamente à perenidade do seu sector de actividade. A confiança é mais elevada nas mari- nhas mercante e militar e relativamente mais baixa na pesca e conquicultura. Segundo os investigadores da Universidade de Nantes, esta percepção relaciona-se com o estatuto das trabalhadoras: as trabalhadoras da marinha apresentam uma maior confiança no futuro do que as que se ocupam de pequenas empresas geralmente familiares (e frágeis) de pesca e aquicultura. É de sublinhar que, paralelamente a esta conclusão, 9 % das mulheres têm de recorrer a um trabalho complementar (principalmente as do sector da pesca) e 12 % trabalham apenas a tempo parcial.

A maioria das mulheres que trabalha nestes sectores marítimos mostra-se contente com a sua profissão. Mais de metade (54 %) voltaria a fazer a mesma escolha, mas, paradoxalmente, 68 % não aconselharia os filhos a seguir a mesma profissão. Quanto à motivação, é de notar que 23 % das mulheres escolheram

a sua profissão pelo prazer, 17 % pela possibilidade de conciliar a vida familiar e a vida profissional (para a pesca e a conquicul- tura) e 15 % pelos rendimentos.

As relações associativas são muito importantes para as mulhe- res inquiridas, sobretudo em Espanha. A este nível, as diver- gências por sector e por país são bastante significativas. Assim, 65 % das mulheres que trabalham nos sectores da pesca e da conquicultura estimam que o reconhecimento das associa- ções de mulheres é insuficiente. Mas esta média esconde uma grande disparidade entre países, caindo a proporção para 49 % em Espanha e ascendendo a 83 % em França. Na mari- nha, 84 % das mulheres estima que as associações femininas não são suficientemente tidas em consideração.

Outro aspecto importante: o assédio no local de trabalho. As mulheres que se dizem vítimas de assédio representam apenas 5 % das pessoas inquiridas nos sectores da pesca e da conquicultura, mas correspondem a 35 % na marinha. Tal dife- rença explica-se pelas relações hierárquicas, mais presentes na marinha. De uma forma mais alargada, 32 % das mulheres, no conjunto de todos os sectores, declara ter sido sujeita a discri- minações na sua vida profissional pelo facto de pertencer ao género feminino. Outro facto significativo: nos sectores da pesca e da marinha mercante, as pessoas interrogadas quei- xam-se da insuficiência dos equipamentos, nomeadamente sanitários, reservados às mulheres nos barcos.

Por fim, um facto significativo da lenta evolução das mentalida- des, neste sector como noutros: na repartição do trabalho doméstico, este continua a ser maioritariamente atribuído às mulheres, sobretudo nos sectores da pesca e da conquicultura, onde 61% das mulheres declara assegurar mais de três quartos das tarefas domésticas e da educação das crianças. No sector da marinha, esta proporção é de 38 %.

Necessidade de se exprimir

Este projecto de investigação mostrou que o lugar da mulher nos sectores marítimos é de uma importância crescente. A ver- tente jurídica do projecto demonstrou que as regulamentações

nacionais e europeias suprimiram as discriminações legais e que este terreno favorável permitiu uma feminização destes sectores, antigamente dominados pelos homens. Existe actualmente um número crescente de mulheres que são chefes de empresas, oficiais de marinha e capitães de pesca. Estas mulheres têm uma contribuição a dar ao universo do trabalho marítimo e precisam de o exprimir. O projecto FEMMAR tem demonstrado isso mesmo.

Numa recente intervenção no Parlamento Europeu, Maria Damanaki, Comissária Europeia das Pescas e dos Assuntos Marítimos, sublinhou a importância do papel das mulheres no desenvolvimento do sector da pesca e da aquicultura. Insistiu na necessidade de reforçar esse papel, «porque existe uma contradição inaceitável entre, por um lado, o papel que desempenham e a riqueza que criam e, por outro lado, o seu reco- nhecimento social e a sua falta de acesso aos benefícios sociais».

Este projecto acaba de entrar no seu último ano de financia- mento. Na agenda: a realização de um filme de vídeo com base nas entrevistas qualitativas levadas a cabo após o inqué- rito, bem como de uma obra destinada a sublinhar o papel dessas mulheres do mar junto do grande público. Para encerrar o projecto, terá lugar um colóquio internacional em Nantes, a 6 e 7 de Junho próximo, para proceder ao balanço dos resultados do projecto e iniciar um debate entre o(a)s participantes.

Para mais informações: http://femmar.free.fr/

(artigo extraído da revista " A Pesca e a aquicultura na Europa" edição nº 51 de Maio de 2011)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ilídia Bettencourt mulher da pesca na ilha Graciosa

Ilídia Bettencourt é uma grande mulher da pesca natural da ilha Graciosa. Em 1993 tirou a cédula marítima e vai ao mar desde esta altura. Tem um barco chamado "Lagosta" e sempre que o tempo permite sai para o mar em busca de sustento.

Ilídia não tinha qualquer ligação com o sector piscatório, pois a sua família vivia da agricultura. Foi quando casou com um pescador que teve conhecimento de uma nova realidade.

Inicialmente remendava redes, preparava a isca e o engodo, depois de alguns anos decidiu tirar a cédula marítima.

Nesta altura Ilídia sentiu-se um pouco discriminada, algumas mulheres criticavam-na por considerarem que ir para o mar era trabalho de homens. Por outro lado, os homens apesar de estranharem eram mais atenciosos e ajudavam no que podiam.

Ilídia Bettencourt tem duas filhas, e ambas estão ligadas à pesca, num sector dito de homens souberam impor a sua vontade seguindo as pegadas da mãe. Uma das filhas tem mesmo cédula marítima e vai para o mar com a mãe sempre que possível.

Apesar das dificuldades que o sector piscatório atravessa Ilídia sempre apoiou a decisão das filhas, segundo ela a crise está instalada em todos os sectores, temos que saber ultrapassá-la. Quem tem barcos deve tentar mantê-los quem não tem não é uma boa altura para investir.

Ilídia Bettencourt é sócia e membro dos corpos sociais da Ilhas em Rede, Associação de Mulheres na Pesca nos Açores. Para ela é muito importante a existência desta associação que trabalha para a visibilidade e reconhecimento do trabalho das mulheres na pesca.

Ilídia refere que as actividades desenvolvidas pela Ilhas em Rede, como por exemplo os encontros, formações, e o Teatro d@ Oprimid@ têm um papel muito importante para o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres na pesca.||

Texto e foto: Joana Medeiros


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Homens e mulheres da pesca discutem com investigadores os grandes temas para a pesca da Região

Entre 21 e 24 de Outubro membros de comunidades piscatórias açorianas, investigadores regionais e internacionais vindos da Dinamarca, Islândia, Espanha, Grécia, Reino Unido, Escócia e Polónia reunir-se-ão em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada no workshop “Explorar a riqueza das comunidades piscatórias ouvindo as suas vozes” uma iniciativa da Universidade dos Açores que tem como objectivo discutir questões fundamentais para o sector das pescas do ponto de vista dos pescadores.

Na sequência do projecto “EDUMAR – Perspectivas sobre o mar” financiado pela Direcção Regional da Ciência e Tecnologia realizado entre 2008 e 2010, e numa colaboração entre o Grupo da Biodiversidade dos Açores, a Associação para a Defesa do Património Marítimo dos Açores e a UMAR Açores foram realizadas entrevistas a membros de associações de pescadores de várias ilhas para auscultar quais as grandes questões que estes gostariam de ver debatidas.

Destes contactos acabariam por ser eleitos 5 grandes temas: (1) a política das pescas, (2) o transporte, marketing e comercialização de pescado de alta qualidade e a necessidade da criação de oportunidades de uma venda mais justa para os pescadores; (3) o acesso à educação e a sua relevância para os jovens que gostariam de ver a prática da sua actividade credenciada; (4) o papel da colaboração entre pescadores e investigadores no estabelecimento de parcerias para a monitorização e gestão de stocks nos parques marinhos (tendo como exemplo o Caneiro dos Meros e o Banco do Condor) e finalmente (5) oportunidades e desafios para pesca tradicional do ponto de vista turístico.

Na sexta-feira dia 21 pelas 9h30 dar-se-á início aos trabalhos que terão lugar no auditório do Campus do Pico da Urze da Universidade dos Açores. Os participantes estarão organizados em mesas redondas para a discussão dos 5 temas em debate. Quem desejar participar, terá que se inscrever previamente para as sessões de sexta-feira (dia 21) no entanto, para as sessões de sábado (dia 22) que terão lugar no Centro Social e Paroquial de São Mateus da Calheta (a partir das 14h), e para as sessões de segunda-feira (dia 24) na Ribeira Quente (pelas 11h30) e em Rabo de Peixe (pelas 15h00) os interessados poderão assistir, sem a necessidade de inscrição prévia, e participar num evento que, de forma inovadora tentará abrir a discussão, tradicionalmente fechada à academia e à decisão política, à participação das comunidades piscatórias “ouvindo as suas vozes”.

Fonte: Comissão Organizadora da Conferência

Foto: Laurinda Sousa