terça-feira, 15 de novembro de 2011

Sectores Marítimos: as mulheres cada vez mais presentes


No imaginário colectivo, o meio profissional marítimo foi durante muito tempo associado a um universo masculino. O papel e o estatuto das mulheres nas actividades marítimas evoluíram consideravelmente ao longo dos últimos 20 anos, em matéria de estatuto jurídico, de acesso ao emprego, mas também de visibilidade. Desde 2009, o projecto FEMMAR da Universidade de Nantes reúne investigadores de diferentes disciplinas para estudar os processos sociológicos, jurídicos, económicos e geo- gráficos relacionados com estas evoluções... e compreender os paradoxos que daí possam resultar.

A Universidade de Nantes, em França (Pays de la Loire), desen- volve numerosas áreas de formação e de investigação especiali- zadas no domínio marítimo. É portanto com toda a naturalidade que uma equipa pluridisciplinar composta por juristas, geógra- fos, sociólogos e economistas decidiu estudar a evolução do papel e do estatuto das mulheres nas actividades marítimas.

O seu projecto de investigação, denominado FEMMAR, foi lançado em 2009 com um financiamento de três anos por parte da região Pays de la Loire. O projecto apresenta igual- mente uma dimensão europeia graças a uma colaboração com universidades inglesas, bascas e galegas.

«O objectivo deste estudo era o de verificar em que medida as coisas evoluíram relativamente à imagem antiquada da mulher de mari- nheiro que espera em casa pelo seu marido viajante, explica Pierrick Olivier, um dos investigadores. Além disso, em alguns sectores marítimos, as mulheres reúnem-se em associações de que apenas se ouve falar em caso de crise. Um tal projecto de investigação permite-lhes exprimirem-se fora dos períodos de crise.»

Um inquérito estatístico

No centro do projecto: um inquérito qualitativo cujo objectivo era o de fazer o balanço sobre o lugar das mulheres no seu meio profissional, dando uma atenção particular aos problemas com

que se debatem e às possíveis soluções. O inquérito foi apoiado por várias associações profissionais e femininas, que difundiram o questionário junto dos seus membros. O inquérito em papel foi complementado por entrevistas individuais.

O estudo permitiu obter 408 respostas analisáveis de mulhe- res entre os 18 e os 78 anos. As respostas vêm maioritaria- mente de França (81 %), sendo as restantes da fachada atlântica da Espanha. Do ponto de vista dos sectores de acti- vidade, a repartição é a seguinte: 33 % das inquiridas trabalham no sector das pescas marítimas, 18 % no ramo conquícola

da aquicultura, 32 % na marinha mercante e 17 % na marinha nacional francesa. Obtiveram-se respostas de mulheres que trabalham noutros sectores marítimos, mas em número dema- siado reduzido para que sejam analisáveis de um ponto de vista estatístico. Dentre as mulheres interrogadas, mais de metade possui um estatuto de trabalhador assalariado (55 %), as restantes são chefes de empresa (16 %) e esposas colabo- radoras (9 %). 20 % são não remuneradas. Mais de um quarto das mulheres inquiridas navegam.

Dentre as que trabalham no sector da pesca, 45 % têm respon- sabilidades na gestão da empresa, 41 % na produção e 22 % na actividade comercial. Apenas 11 % navega.

O inquérito debruçou-se sobre numerosos aspectos da vida profissional dessas mulheres. Apenas nos referiremos a alguns deles.

O primeiro é a sua confiança relativamente à perenidade do seu sector de actividade. A confiança é mais elevada nas mari- nhas mercante e militar e relativamente mais baixa na pesca e conquicultura. Segundo os investigadores da Universidade de Nantes, esta percepção relaciona-se com o estatuto das trabalhadoras: as trabalhadoras da marinha apresentam uma maior confiança no futuro do que as que se ocupam de pequenas empresas geralmente familiares (e frágeis) de pesca e aquicultura. É de sublinhar que, paralelamente a esta conclusão, 9 % das mulheres têm de recorrer a um trabalho complementar (principalmente as do sector da pesca) e 12 % trabalham apenas a tempo parcial.

A maioria das mulheres que trabalha nestes sectores marítimos mostra-se contente com a sua profissão. Mais de metade (54 %) voltaria a fazer a mesma escolha, mas, paradoxalmente, 68 % não aconselharia os filhos a seguir a mesma profissão. Quanto à motivação, é de notar que 23 % das mulheres escolheram

a sua profissão pelo prazer, 17 % pela possibilidade de conciliar a vida familiar e a vida profissional (para a pesca e a conquicul- tura) e 15 % pelos rendimentos.

As relações associativas são muito importantes para as mulhe- res inquiridas, sobretudo em Espanha. A este nível, as diver- gências por sector e por país são bastante significativas. Assim, 65 % das mulheres que trabalham nos sectores da pesca e da conquicultura estimam que o reconhecimento das associa- ções de mulheres é insuficiente. Mas esta média esconde uma grande disparidade entre países, caindo a proporção para 49 % em Espanha e ascendendo a 83 % em França. Na mari- nha, 84 % das mulheres estima que as associações femininas não são suficientemente tidas em consideração.

Outro aspecto importante: o assédio no local de trabalho. As mulheres que se dizem vítimas de assédio representam apenas 5 % das pessoas inquiridas nos sectores da pesca e da conquicultura, mas correspondem a 35 % na marinha. Tal dife- rença explica-se pelas relações hierárquicas, mais presentes na marinha. De uma forma mais alargada, 32 % das mulheres, no conjunto de todos os sectores, declara ter sido sujeita a discri- minações na sua vida profissional pelo facto de pertencer ao género feminino. Outro facto significativo: nos sectores da pesca e da marinha mercante, as pessoas interrogadas quei- xam-se da insuficiência dos equipamentos, nomeadamente sanitários, reservados às mulheres nos barcos.

Por fim, um facto significativo da lenta evolução das mentalida- des, neste sector como noutros: na repartição do trabalho doméstico, este continua a ser maioritariamente atribuído às mulheres, sobretudo nos sectores da pesca e da conquicultura, onde 61% das mulheres declara assegurar mais de três quartos das tarefas domésticas e da educação das crianças. No sector da marinha, esta proporção é de 38 %.

Necessidade de se exprimir

Este projecto de investigação mostrou que o lugar da mulher nos sectores marítimos é de uma importância crescente. A ver- tente jurídica do projecto demonstrou que as regulamentações

nacionais e europeias suprimiram as discriminações legais e que este terreno favorável permitiu uma feminização destes sectores, antigamente dominados pelos homens. Existe actualmente um número crescente de mulheres que são chefes de empresas, oficiais de marinha e capitães de pesca. Estas mulheres têm uma contribuição a dar ao universo do trabalho marítimo e precisam de o exprimir. O projecto FEMMAR tem demonstrado isso mesmo.

Numa recente intervenção no Parlamento Europeu, Maria Damanaki, Comissária Europeia das Pescas e dos Assuntos Marítimos, sublinhou a importância do papel das mulheres no desenvolvimento do sector da pesca e da aquicultura. Insistiu na necessidade de reforçar esse papel, «porque existe uma contradição inaceitável entre, por um lado, o papel que desempenham e a riqueza que criam e, por outro lado, o seu reco- nhecimento social e a sua falta de acesso aos benefícios sociais».

Este projecto acaba de entrar no seu último ano de financia- mento. Na agenda: a realização de um filme de vídeo com base nas entrevistas qualitativas levadas a cabo após o inqué- rito, bem como de uma obra destinada a sublinhar o papel dessas mulheres do mar junto do grande público. Para encerrar o projecto, terá lugar um colóquio internacional em Nantes, a 6 e 7 de Junho próximo, para proceder ao balanço dos resultados do projecto e iniciar um debate entre o(a)s participantes.

Para mais informações: http://femmar.free.fr/

(artigo extraído da revista " A Pesca e a aquicultura na Europa" edição nº 51 de Maio de 2011)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ilídia Bettencourt mulher da pesca na ilha Graciosa

Ilídia Bettencourt é uma grande mulher da pesca natural da ilha Graciosa. Em 1993 tirou a cédula marítima e vai ao mar desde esta altura. Tem um barco chamado "Lagosta" e sempre que o tempo permite sai para o mar em busca de sustento.

Ilídia não tinha qualquer ligação com o sector piscatório, pois a sua família vivia da agricultura. Foi quando casou com um pescador que teve conhecimento de uma nova realidade.

Inicialmente remendava redes, preparava a isca e o engodo, depois de alguns anos decidiu tirar a cédula marítima.

Nesta altura Ilídia sentiu-se um pouco discriminada, algumas mulheres criticavam-na por considerarem que ir para o mar era trabalho de homens. Por outro lado, os homens apesar de estranharem eram mais atenciosos e ajudavam no que podiam.

Ilídia Bettencourt tem duas filhas, e ambas estão ligadas à pesca, num sector dito de homens souberam impor a sua vontade seguindo as pegadas da mãe. Uma das filhas tem mesmo cédula marítima e vai para o mar com a mãe sempre que possível.

Apesar das dificuldades que o sector piscatório atravessa Ilídia sempre apoiou a decisão das filhas, segundo ela a crise está instalada em todos os sectores, temos que saber ultrapassá-la. Quem tem barcos deve tentar mantê-los quem não tem não é uma boa altura para investir.

Ilídia Bettencourt é sócia e membro dos corpos sociais da Ilhas em Rede, Associação de Mulheres na Pesca nos Açores. Para ela é muito importante a existência desta associação que trabalha para a visibilidade e reconhecimento do trabalho das mulheres na pesca.

Ilídia refere que as actividades desenvolvidas pela Ilhas em Rede, como por exemplo os encontros, formações, e o Teatro d@ Oprimid@ têm um papel muito importante para o desenvolvimento pessoal e profissional das mulheres na pesca.||

Texto e foto: Joana Medeiros


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Homens e mulheres da pesca discutem com investigadores os grandes temas para a pesca da Região

Entre 21 e 24 de Outubro membros de comunidades piscatórias açorianas, investigadores regionais e internacionais vindos da Dinamarca, Islândia, Espanha, Grécia, Reino Unido, Escócia e Polónia reunir-se-ão em Angra do Heroísmo e Ponta Delgada no workshop “Explorar a riqueza das comunidades piscatórias ouvindo as suas vozes” uma iniciativa da Universidade dos Açores que tem como objectivo discutir questões fundamentais para o sector das pescas do ponto de vista dos pescadores.

Na sequência do projecto “EDUMAR – Perspectivas sobre o mar” financiado pela Direcção Regional da Ciência e Tecnologia realizado entre 2008 e 2010, e numa colaboração entre o Grupo da Biodiversidade dos Açores, a Associação para a Defesa do Património Marítimo dos Açores e a UMAR Açores foram realizadas entrevistas a membros de associações de pescadores de várias ilhas para auscultar quais as grandes questões que estes gostariam de ver debatidas.

Destes contactos acabariam por ser eleitos 5 grandes temas: (1) a política das pescas, (2) o transporte, marketing e comercialização de pescado de alta qualidade e a necessidade da criação de oportunidades de uma venda mais justa para os pescadores; (3) o acesso à educação e a sua relevância para os jovens que gostariam de ver a prática da sua actividade credenciada; (4) o papel da colaboração entre pescadores e investigadores no estabelecimento de parcerias para a monitorização e gestão de stocks nos parques marinhos (tendo como exemplo o Caneiro dos Meros e o Banco do Condor) e finalmente (5) oportunidades e desafios para pesca tradicional do ponto de vista turístico.

Na sexta-feira dia 21 pelas 9h30 dar-se-á início aos trabalhos que terão lugar no auditório do Campus do Pico da Urze da Universidade dos Açores. Os participantes estarão organizados em mesas redondas para a discussão dos 5 temas em debate. Quem desejar participar, terá que se inscrever previamente para as sessões de sexta-feira (dia 21) no entanto, para as sessões de sábado (dia 22) que terão lugar no Centro Social e Paroquial de São Mateus da Calheta (a partir das 14h), e para as sessões de segunda-feira (dia 24) na Ribeira Quente (pelas 11h30) e em Rabo de Peixe (pelas 15h00) os interessados poderão assistir, sem a necessidade de inscrição prévia, e participar num evento que, de forma inovadora tentará abrir a discussão, tradicionalmente fechada à academia e à decisão política, à participação das comunidades piscatórias “ouvindo as suas vozes”.

Fonte: Comissão Organizadora da Conferência

Foto: Laurinda Sousa

Ângela Rodrigues, mulher da Pesca da ilha do Pico

Ângela Rodrigues é uma mulher da pesca que vive na soberba ilha Montanha, Pico.

É casada com um pescador, e foi desde aí que se ligou de corpo e coração à pesca. Já tiveram trêsbarcos, hoje têmo “Ângela”.

O seu trabalho na pesca foi se intensificando ao longo dos anos. Inicialmente Ângela encarregava-se de tarefas como a limpeza do barco, quando chegava do mar,bem como dacarrinha onde o peixe era vendido. Depois foi se integrando na vida da pesca, começou a vender peixe pelas freguesias, apreparar a isca, o engodo,etc.

Ângela refere também, que àsvezes trata da administração do barco, apesar de ser o seumarido quem o faz regularmente. Quando questionada com o facto de já ter sido discriminada pelo seu trabalho na pesca, Ângela diz que no inicio, alguns homens ficavam surpresos ao ver uma mulher a trabalhar no porto, por exemplo às 5hoo da manhã, mas directamente nunca foi alvo de discriminação.

Acerca das leis da pesca, segundo Ângela, é necessário que hajam para o bom funcionamento do sector piscatório, porém nãodescarta o facto de em alguns casos serem prejudiciais para os/as pescadores/as, devido às especificidades das ilhas dos Açores.

Ângela Rodrigues faz parte da Ilhas em Rede, Associação de Mulheres na Pesca nos Açores, desde 2008, altura em que foi criada a associação. Para ela é um orgulho fazer parte da Ilhas em Rede, é uma forma de dar a conhecer o papel das mulheres na pesca e neste sentido, dar voz a umgrupo muitasvezes invisível e esquecido. Ângela recorda que há uns anos atrás eram muito poucas as mulheres que se faziam representar em debates e reuniões sobre osector piscatório, porém hoje isso está a ser ultrapassado e a Ilhasem Rede tem constituido um forte contributo para tal.

As mulheres hoje participam e interagem.

Texto e foto: Joana Medeiros

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ilhas em Rede reúne no Pico

A Ilhas em Rede, Associação de Mulheres da Pesca nos Açores, leva a efeito em São Roque na ilha do Pico, entre 15 e 18 de Setembro, um encontro de âmbito regional, no qual se espera participem cerca de duas dezenas de mulheres de diferentes ilhas.

Intercâmbio, debate e reflexão sobre a situação das mulheres na pesca artesanal é motivo deste encontro do qual faz parte ainda a apresentação pública do projecto “Caminhos em Terra e no Mar”, da UMAR-Açores, incluindo os resultados preliminares de um estudo / levantamento sobre receitas de chicharro, a apresentação de uma peça de Teatro Fórum (Teatro do/a Oprimido/a), a exposição de fotografias “Mulheres semeando um outro Mar” e a exibição do documentário “ComPassos de Mudança”.

As actividades mencionadas terão lugar na Biblioteca Pública de São Roque do Pico e serão abertas ao público que assim poderá ficar a conhecer melhor a realidade, ainda para muitos desconhecida, das mulheres da pesca nos Açores. Uma realidade que inclui, entre outras funções, saídas para o mar (pescadoras de mar), preparação em terra das artes de pesca (pescadoras de terra) e o trabalho logístico e administrativo inerente a uma embarcação de pesca, trabalho este desempenhado na maioria das vezes pelas esposas dos pescadores/armadores e que ainda não é suficientemente reconhecido e valorizado.

Para além das actividades já mencionadas, a ocasião será aproveitada pela Ilhas em Rede para a realização de uma Assembleia Geral, onde será apresentado e colocado a votação o Plano de Actividades para 2012.

Este encontro das mulheres da pesca no Pico conta com a parceria da UMAR-Açores, Câmara Municipal de São Roque do Pico e Descalças Cooperativa Cultura. A iniciativa conta ainda com o apoio da Subsecretaria Regional das Pescas, Biblioteca Municipal de São Roque, Câmara Municipal da Madalena do Pico e Pousadas de Juventude dos Açores.

Laurinda Sousa


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Entrevista a Fátima Garcia, pescadora da ilha do Faial

Maria de Fátima Garcia é uma mulher da pesca natural da ilha do Faial, é pescadora há já alguns anos. No ano de 2000 tirou a cédula marítima e anos depois arrais de pesca e arrais costeiro.

Fátima Garcia tem 4 filhos/as, nenhum/a está ligado/a à pesca em termos profissionais, apesar de gostarem de ir para o mar. O sustento da sua família provém do suor e da luta constante inerente à vida na pesca, às suas idas e vindas do mar com o seu marido.

Fátima Garcia referiu que inicialmente alguns homens ficavam um pouco duvidosos ao ver que ela ia para o mar mas ela desde o inicio sempre impôs respeito mostrando que tinha capacidade e sabia fazer exactamente as mesmas coisas que os homens.

Quanto à situação do sector piscatório Fátima Garcia sente uma grande tristeza ao ver que o pescado e os/as pescadores/as não estão a ter o devido valor. O peixe é vendido na lota a um preço muito baixo oscilando de uma forma inacreditável.

Relativamente à Ilhas em Rede, associação da qual tem sido Presidente função que passou agora a ser assumida por Maria Lurdes Lopes, Fátima Garcia vê com muito orgulho o crescimento desta associação.

A valorização do trabalho das mulheres na pesca é muito importante: Desde que a associação foi criada que há um maior reconhecimento por parte das autoridades e entidades, e neste sentido, um maior progresso, as mulheres já não ficam na sombra, gostam de mostrar o seu interesse, questões e dúvidas em matérias da pesca.

Segundo Fátima Garcia o facto de a Ilhas em Rede integrar o Conselho Consultivo Regional do Sul (CCR-Sul) é essencial para o conhecimento da realidade da pesca na Europa.

Apesar da distância e das diferenças geográficas existe muito de comum na pesca artesanal em diferentes países, como dificuldades, limitações e progressos.

Texto: Joana Medeiros

Uma noite com os Pescadores

Entre os dias 17 e 18 de Agosto, compartilhei com três amigos uma intensa experiência no mar: quando voltámos a reunir-nos em terra, nenhum de nós encontrava as palavras para descrever a sua emoção. Essas horas permanecem em mim com extraordinária nitidez, bem como os rostos e as vozes daqueles que me permitiram vivê-las. Vi as águas negras ficarem de improviso transparentes e fervilhar de vida, vi um azul tão profundo que eu nem sequer imaginava que pudesse existir: contudo, dessa noite, não foi a indescritível beleza que me tocou mais, mas sim a rara qualidade humana daqueles que, hora após hora, fadiga atrás de fadiga, cada vez me impressionavam mais pela sua serenidade face a um incógnito presente a cada instante…

Foi assim: uma vez completadas as necessárias diligências, Martine e Miguel, Kas e eu saímos em dois barcos de boca aberta pertencentes a armadores de Rabo de Peixe que se encontravam a pescar na costa Sul. Os dois jornalistas franceses partiram de Vila Franca, no ‘Lisboa’, do Mestre José Manuel: à mesma hora, a Kas e eu deixámos Ponta Delgada no ‘Letícia Moniz’ do Mestre Artur Andrade correndo para Poente. A última luz do dia extinguiu-se, o céu e o mar confundiram-se numa única treva. Mestre Artur mandara-nos vestir os coletes de segurança: durante toda a noite os doze homens da ‘companha’ tiveram para connosco uma atitude de grande protecção, e nunca deixaram de nos explicar tudo o que acontecia. O barco, que arrastava um bote com um único homem, parou abruptamente. Uma luz fortíssima incidiu sobre as águas: a sonda revelara a presença de cardumes. Iniciou então uma actividade sem intervalos, cuja complexidade de execução tinha algo de fantástico, juntando à necessária precisão dos movimentos um esforço físico extremo. Era preciso pescar antes que a Lua estivesse alta, pois a luz dos holofotes do bote é, juntamente com o engodo, o que chama à superfície os cardumes. O barco maior, com as luzes apagadas e em alta velocidade, descreve um círculo em volta da zona iluminada, largando assim as redes: é o «enchalavar», ou rede de cerco. Enquanto o bote sai do círculo e recomeça a sua tarefa noutra zona, os homens já recolhem a enorme rede circular: «Vamos embora», encorajam-se mutuamente enquanto puxam, vencendo uma resistência que se adivinha tremenda. Um complicado jogo de cabos permite fechar o cerco por baixo, e a rede volta a acumular-se à popa, pronta para o próximo lançamento. Quando emergem os metros finais, formando uma espécie de saco, uma chuva prateada de peixes cai no barco, e o ciclo recomeça. São imediatamente devolvidos à água muitos exemplares ainda bem vivos: tudo o não é chicharro ou cavala. Nessa noite, que foi boa, atingiu-se o máximo das capturas permitidas: respectivamente 350 e 300 quilos. O valor deste peixe, após várias detracções, será dividido em partes iguais entre os homens: e uma parte igual à deles será a ‘do barco’. Dois problemas fizeram com que a pesca se prolongasse: uma falha nos holofotes do bote, cuja reparação exigiu o transborde de um segundo homem para a minúscula embarcação, e a captura involuntária de uma enorme tartaruga: durante muito tempo os pescadores lutaram para que saísse da rede sem se magoar, e quando o animal ficou novamente livre, o mais jovem gritou-lhe: «Vai com Deus!», enquanto a bordo explodia a alegria de todos. Contei dez cercos, antes do regresso. Os pescadores estavam exaustos, mas mesmo assim, em voz baixa, continuaram a falar connosco. Já de manhã, após a descarga do peixe, regressámos à terra firme: para os homens o descanso mais que necessário, para a Kas e para mim uma despedida difícil e umas memórias que nos acompanharão para sempre.

Texto: Cátia Benedetti

Fotos: Martine Frágoas e Vicent Plana

In: Açoriano Oriental, página “Voz dos Maritimos” – 31 de Agosto de 2011

Entrevista a Lurdes Moniz, mulher da pesca de Rabo de Peixe

Maria de Lurdes Moniz é uma mulher da pesca natural da bonita Vila de Rabo de Peixe. Tem 6 filhos/as, três raparigas e três rapazes.

Lurdes Moniz sempre esteve ligada à pesca, o seu pai era vendedor de peixe. Porém quando se casou com Artur Carreiro a sua ligação com a pesca tornou-se mais forte. Começou a trabalhar na pesca, cozia batata para o engodo, lavava todos os dias as “mangas” usadas para colocar o engodo, remendava redes e entre tudo isso era mãe e esposa.

É com alguma melancolia que Lurdes Moniz vê as dificuldades que o sector piscatório está a ultrapassar, é cada vez mais difícil viver e sustentar uma família com o dinheiro fruto do trabalho no mar. Segundo ela, ainda há quem diga que os pescadores/as não sabem gerir os seus rendimentos.

Por isso Lurdes salienta que os responsáveis pelo sector da pesca deviam colocar-se no lugar dos/as pescadores/as, pois só assim poderão dar valor e conhecer de perto as dificuldades vividas diariamente por estas pessoas e suas famílias.

Apesar da crise no sector Lurdes Moniz e o seu marido têm vontade que algum dos seus filhos fique com o barco da família “Letícia Moniz”, “talvez o mais novo” como refere Lurdes.

Um aspecto que tem vindo a suscitar alguma indignação por parte de Lurdes Moniz é a falta de informação em matéria da pesca. Os pescadores/as não sabem os seus direitos, nem o que fazer em muitas situações.

Lurdes Moniz é sócia da Ilhas em Rede, segundo ela esta associação de Mulheres na Pesca tem lhe proporcionado oportunidades únicas. Tem participado em debates e discussões sobre a pesca, trocado experiências e conhecido outras realidades através dos intercâmbios realizados pela associação.

Para Lurdes Moniz é muito gratificante fazer parte da Ilhas em Rede. Sente-se concretizada e tem aprendido muito.

Texto e foto: Joana Medeiros

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Maria da Esperança nome de Salva-Vidas

Em homenagem às mulheres da pesca, o novo Salva-Vidas recebeu o nome Maria da Esperança, mulher lutadora, nascida em Rabo de Peixe, em Julho de 1930.

A 20 de Julho, ao lado das autoridades civis e militares, e a convite da Capitania do Porto de Ponta Delgada, alguns pescadores e numerosas mulheres ligadas à pesca (armadoras e/ou familiares de pescadores) viveram uns momentos tocantes. Nessa manhã foi baptizado o novo Salva-Vidas da Capitania: uma embarcação rápida e dotada da instrumentação necessária para se situar na primeira linha de uma operação de socorro. Algo, em suma, que pode realmente fazer a diferença entre a vida e a morte de quem busca no mar o seu sustento.

A cerimónia, simples e intensa, teve para as mulheres da pesca um significado especial: com grande sensibilidade, o Capitão do Porto, Capitão de Mar e Guerra João António da Cruz Rodrigues Gonçalves, pediu à Associação Ilhas em Rede que sugerisse o nome de uma mulher para o novo Salva-Vidas.

Não foi fácil, para a Associação, escolher um: tantos, afinal, seriam possíveis…. No dia-a-dia das gentes da pesca, para além das mulheres que participam directamente na faina, muitas outras praticam diariamente um heroísmo silencioso, feito de esforço, de solidariedade activa, de cuidados de todos os géneros para com os seus pais, filhos ou companheiros. Contudo, um nome foi sugerido: o novo Salva-Vidas chama-se Maria da Esperança, em honra de uma mulher cuja vida bem exemplifica a experiência colectiva das mulheres ligadas ao mar.

Nascida a 3 de Julho de 1930 em Rabo de Peixe, onde viveu toda a sua vida, casou com o pescador Henrique Oliveira Cabral e teve quinze filhos: os nove que estão vivos pertencem todos à fileira da pesca. Toda a vida desta senhora foi uma dádiva em prol da sua família e da sua comunidade. A atenção e a ternura que a notabilizaram como companheira, mãe e avó (deixou 53 netos que a recordam com grande saudade) não esgotaram pois as suas energias. Maria da Esperança, ao lado de Maria Natália Estrela Andrade, ainda viva, desempenhou um papel crucial nas lutas que, entre 1994 e 1995, levaram à conquista do subsídio de Mau Tempo (o antepassado do actual Fundo de Pesca), chegando a fazer parte da delegação que se encontrou com o então Presidente do Governo Regional, Dr. João Bosco Mota Amaral.

Maria da Esperança morreu em 2006, com setenta e seis anos, e é recordada com admiração. Os familiares emocionaram-se, quando a bandeira portuguesa que encobria o nome do barco foi retirada. Duas das suas filhas, Maria do Espírito Santo e Nélia, bem como uma nora, fizeram questão de vestir neste dia umas roupas de cerimónia que pertenceram à mãe, de quem lembravam a beleza e o aprumo: pois esta mulher, que esteve na frente de uma grande família e que foi sempre uma lutadora, era bela e gostava de roupas bonitas e de saltos altos: mais um modo de exprimir o seu amor à vida.

Como disse Lurdes Batista Lopes, Presidente de Ilhas em Rede, o nome do novo Salva-Vidas homenageia todas as mulheres da pesca: pois todas mantêm viva a esperança num mundo mais justo e mais digno para quem vive do perigoso trabalho do Mar.

Texto: Catia Benedetti

Foto: Joana Medeiros

sexta-feira, 8 de julho de 2011

3º Aniversário da Ilhas em Rede


A Associação de Mulheres da Pesca nos Açores – Ilhas em Rede (IR) assinala este mês de Julho, o seu terceiro aniversário.

Constituída formalmente em 8 de Julho de 2008 e com associadas em praticamente todas as ilhas, a IR tem como principal objectivo a valorização sócio - profissional das mulheres da pesca que trabalham nos Açores e surgiu no âmbito do projecto “A Mulher na Pesca” desenvolvido pela UMAR-Açores.

Em São Miguel a data será assinalada esta sexta-feira, dia 8 de Julho, com um lanche convívio, uma exposição de fotografias e o visionamento do documentário “Compassos de Mudança”. Todas estas actividades terão lugar no Centro Comunitário e de Juventude de Rabo de Peixe.

Relativamente à exposição intitulada “Mulheres semeando um outro mar” é composta por cerca de 40 fotografias e procura retratar e dar a conhecer o percurso das mulheres da pesca nos Açores durante a última década. As fotos documentam não só as várias tarefas por elas desempenhadas no sector e nas comunidades piscatórias, como também as diferentes iniciativas em que as mesmas têm participado, quer por iniciativa da UMAR - Açores quer de outras associações, como sejam encontros, congressos, workshops, entre outras. A exposição resulta de uma parceria entre a Ilhas em Rede, a UMAR e o Gabinete de Assessoria ao Jovem de Rabo de Peixe e poderá ser visitada até finais de Agosto, em horário normal de expediente.

Em relação ao filme “Compassos de Mudança” será exibido pelas 15h. Realizado por Maria Simões, este filme documenta uma Oficina de Teatro d@ Oprimid@, levada a cabo na Ribeira Quente, em finais do ano passado, e protagonizada por mulheres da pesca. A exibição doeste documentário está aberta ao público em geral.

Ainda no âmbito das celebrações do 3º aniversário da Ilhas em Rede, o mesmo documentário será exibido dia 23 de Julho em São Mateus e dia 29 na Biblioteca Pública da Horta, pelas 14 horas.

Texto e foto: Laurinda Sousa