quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Ângela Rodrigues, mulher da Pesca da ilha do Pico

Ângela Rodrigues é uma mulher da pesca que vive na soberba ilha Montanha, Pico.

É casada com um pescador, e foi desde aí que se ligou de corpo e coração à pesca. Já tiveram trêsbarcos, hoje têmo “Ângela”.

O seu trabalho na pesca foi se intensificando ao longo dos anos. Inicialmente Ângela encarregava-se de tarefas como a limpeza do barco, quando chegava do mar,bem como dacarrinha onde o peixe era vendido. Depois foi se integrando na vida da pesca, começou a vender peixe pelas freguesias, apreparar a isca, o engodo,etc.

Ângela refere também, que àsvezes trata da administração do barco, apesar de ser o seumarido quem o faz regularmente. Quando questionada com o facto de já ter sido discriminada pelo seu trabalho na pesca, Ângela diz que no inicio, alguns homens ficavam surpresos ao ver uma mulher a trabalhar no porto, por exemplo às 5hoo da manhã, mas directamente nunca foi alvo de discriminação.

Acerca das leis da pesca, segundo Ângela, é necessário que hajam para o bom funcionamento do sector piscatório, porém nãodescarta o facto de em alguns casos serem prejudiciais para os/as pescadores/as, devido às especificidades das ilhas dos Açores.

Ângela Rodrigues faz parte da Ilhas em Rede, Associação de Mulheres na Pesca nos Açores, desde 2008, altura em que foi criada a associação. Para ela é um orgulho fazer parte da Ilhas em Rede, é uma forma de dar a conhecer o papel das mulheres na pesca e neste sentido, dar voz a umgrupo muitasvezes invisível e esquecido. Ângela recorda que há uns anos atrás eram muito poucas as mulheres que se faziam representar em debates e reuniões sobre osector piscatório, porém hoje isso está a ser ultrapassado e a Ilhasem Rede tem constituido um forte contributo para tal.

As mulheres hoje participam e interagem.

Texto e foto: Joana Medeiros

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Ilhas em Rede reúne no Pico

A Ilhas em Rede, Associação de Mulheres da Pesca nos Açores, leva a efeito em São Roque na ilha do Pico, entre 15 e 18 de Setembro, um encontro de âmbito regional, no qual se espera participem cerca de duas dezenas de mulheres de diferentes ilhas.

Intercâmbio, debate e reflexão sobre a situação das mulheres na pesca artesanal é motivo deste encontro do qual faz parte ainda a apresentação pública do projecto “Caminhos em Terra e no Mar”, da UMAR-Açores, incluindo os resultados preliminares de um estudo / levantamento sobre receitas de chicharro, a apresentação de uma peça de Teatro Fórum (Teatro do/a Oprimido/a), a exposição de fotografias “Mulheres semeando um outro Mar” e a exibição do documentário “ComPassos de Mudança”.

As actividades mencionadas terão lugar na Biblioteca Pública de São Roque do Pico e serão abertas ao público que assim poderá ficar a conhecer melhor a realidade, ainda para muitos desconhecida, das mulheres da pesca nos Açores. Uma realidade que inclui, entre outras funções, saídas para o mar (pescadoras de mar), preparação em terra das artes de pesca (pescadoras de terra) e o trabalho logístico e administrativo inerente a uma embarcação de pesca, trabalho este desempenhado na maioria das vezes pelas esposas dos pescadores/armadores e que ainda não é suficientemente reconhecido e valorizado.

Para além das actividades já mencionadas, a ocasião será aproveitada pela Ilhas em Rede para a realização de uma Assembleia Geral, onde será apresentado e colocado a votação o Plano de Actividades para 2012.

Este encontro das mulheres da pesca no Pico conta com a parceria da UMAR-Açores, Câmara Municipal de São Roque do Pico e Descalças Cooperativa Cultura. A iniciativa conta ainda com o apoio da Subsecretaria Regional das Pescas, Biblioteca Municipal de São Roque, Câmara Municipal da Madalena do Pico e Pousadas de Juventude dos Açores.

Laurinda Sousa


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Entrevista a Fátima Garcia, pescadora da ilha do Faial

Maria de Fátima Garcia é uma mulher da pesca natural da ilha do Faial, é pescadora há já alguns anos. No ano de 2000 tirou a cédula marítima e anos depois arrais de pesca e arrais costeiro.

Fátima Garcia tem 4 filhos/as, nenhum/a está ligado/a à pesca em termos profissionais, apesar de gostarem de ir para o mar. O sustento da sua família provém do suor e da luta constante inerente à vida na pesca, às suas idas e vindas do mar com o seu marido.

Fátima Garcia referiu que inicialmente alguns homens ficavam um pouco duvidosos ao ver que ela ia para o mar mas ela desde o inicio sempre impôs respeito mostrando que tinha capacidade e sabia fazer exactamente as mesmas coisas que os homens.

Quanto à situação do sector piscatório Fátima Garcia sente uma grande tristeza ao ver que o pescado e os/as pescadores/as não estão a ter o devido valor. O peixe é vendido na lota a um preço muito baixo oscilando de uma forma inacreditável.

Relativamente à Ilhas em Rede, associação da qual tem sido Presidente função que passou agora a ser assumida por Maria Lurdes Lopes, Fátima Garcia vê com muito orgulho o crescimento desta associação.

A valorização do trabalho das mulheres na pesca é muito importante: Desde que a associação foi criada que há um maior reconhecimento por parte das autoridades e entidades, e neste sentido, um maior progresso, as mulheres já não ficam na sombra, gostam de mostrar o seu interesse, questões e dúvidas em matérias da pesca.

Segundo Fátima Garcia o facto de a Ilhas em Rede integrar o Conselho Consultivo Regional do Sul (CCR-Sul) é essencial para o conhecimento da realidade da pesca na Europa.

Apesar da distância e das diferenças geográficas existe muito de comum na pesca artesanal em diferentes países, como dificuldades, limitações e progressos.

Texto: Joana Medeiros

Uma noite com os Pescadores

Entre os dias 17 e 18 de Agosto, compartilhei com três amigos uma intensa experiência no mar: quando voltámos a reunir-nos em terra, nenhum de nós encontrava as palavras para descrever a sua emoção. Essas horas permanecem em mim com extraordinária nitidez, bem como os rostos e as vozes daqueles que me permitiram vivê-las. Vi as águas negras ficarem de improviso transparentes e fervilhar de vida, vi um azul tão profundo que eu nem sequer imaginava que pudesse existir: contudo, dessa noite, não foi a indescritível beleza que me tocou mais, mas sim a rara qualidade humana daqueles que, hora após hora, fadiga atrás de fadiga, cada vez me impressionavam mais pela sua serenidade face a um incógnito presente a cada instante…

Foi assim: uma vez completadas as necessárias diligências, Martine e Miguel, Kas e eu saímos em dois barcos de boca aberta pertencentes a armadores de Rabo de Peixe que se encontravam a pescar na costa Sul. Os dois jornalistas franceses partiram de Vila Franca, no ‘Lisboa’, do Mestre José Manuel: à mesma hora, a Kas e eu deixámos Ponta Delgada no ‘Letícia Moniz’ do Mestre Artur Andrade correndo para Poente. A última luz do dia extinguiu-se, o céu e o mar confundiram-se numa única treva. Mestre Artur mandara-nos vestir os coletes de segurança: durante toda a noite os doze homens da ‘companha’ tiveram para connosco uma atitude de grande protecção, e nunca deixaram de nos explicar tudo o que acontecia. O barco, que arrastava um bote com um único homem, parou abruptamente. Uma luz fortíssima incidiu sobre as águas: a sonda revelara a presença de cardumes. Iniciou então uma actividade sem intervalos, cuja complexidade de execução tinha algo de fantástico, juntando à necessária precisão dos movimentos um esforço físico extremo. Era preciso pescar antes que a Lua estivesse alta, pois a luz dos holofotes do bote é, juntamente com o engodo, o que chama à superfície os cardumes. O barco maior, com as luzes apagadas e em alta velocidade, descreve um círculo em volta da zona iluminada, largando assim as redes: é o «enchalavar», ou rede de cerco. Enquanto o bote sai do círculo e recomeça a sua tarefa noutra zona, os homens já recolhem a enorme rede circular: «Vamos embora», encorajam-se mutuamente enquanto puxam, vencendo uma resistência que se adivinha tremenda. Um complicado jogo de cabos permite fechar o cerco por baixo, e a rede volta a acumular-se à popa, pronta para o próximo lançamento. Quando emergem os metros finais, formando uma espécie de saco, uma chuva prateada de peixes cai no barco, e o ciclo recomeça. São imediatamente devolvidos à água muitos exemplares ainda bem vivos: tudo o não é chicharro ou cavala. Nessa noite, que foi boa, atingiu-se o máximo das capturas permitidas: respectivamente 350 e 300 quilos. O valor deste peixe, após várias detracções, será dividido em partes iguais entre os homens: e uma parte igual à deles será a ‘do barco’. Dois problemas fizeram com que a pesca se prolongasse: uma falha nos holofotes do bote, cuja reparação exigiu o transborde de um segundo homem para a minúscula embarcação, e a captura involuntária de uma enorme tartaruga: durante muito tempo os pescadores lutaram para que saísse da rede sem se magoar, e quando o animal ficou novamente livre, o mais jovem gritou-lhe: «Vai com Deus!», enquanto a bordo explodia a alegria de todos. Contei dez cercos, antes do regresso. Os pescadores estavam exaustos, mas mesmo assim, em voz baixa, continuaram a falar connosco. Já de manhã, após a descarga do peixe, regressámos à terra firme: para os homens o descanso mais que necessário, para a Kas e para mim uma despedida difícil e umas memórias que nos acompanharão para sempre.

Texto: Cátia Benedetti

Fotos: Martine Frágoas e Vicent Plana

In: Açoriano Oriental, página “Voz dos Maritimos” – 31 de Agosto de 2011

Entrevista a Lurdes Moniz, mulher da pesca de Rabo de Peixe

Maria de Lurdes Moniz é uma mulher da pesca natural da bonita Vila de Rabo de Peixe. Tem 6 filhos/as, três raparigas e três rapazes.

Lurdes Moniz sempre esteve ligada à pesca, o seu pai era vendedor de peixe. Porém quando se casou com Artur Carreiro a sua ligação com a pesca tornou-se mais forte. Começou a trabalhar na pesca, cozia batata para o engodo, lavava todos os dias as “mangas” usadas para colocar o engodo, remendava redes e entre tudo isso era mãe e esposa.

É com alguma melancolia que Lurdes Moniz vê as dificuldades que o sector piscatório está a ultrapassar, é cada vez mais difícil viver e sustentar uma família com o dinheiro fruto do trabalho no mar. Segundo ela, ainda há quem diga que os pescadores/as não sabem gerir os seus rendimentos.

Por isso Lurdes salienta que os responsáveis pelo sector da pesca deviam colocar-se no lugar dos/as pescadores/as, pois só assim poderão dar valor e conhecer de perto as dificuldades vividas diariamente por estas pessoas e suas famílias.

Apesar da crise no sector Lurdes Moniz e o seu marido têm vontade que algum dos seus filhos fique com o barco da família “Letícia Moniz”, “talvez o mais novo” como refere Lurdes.

Um aspecto que tem vindo a suscitar alguma indignação por parte de Lurdes Moniz é a falta de informação em matéria da pesca. Os pescadores/as não sabem os seus direitos, nem o que fazer em muitas situações.

Lurdes Moniz é sócia da Ilhas em Rede, segundo ela esta associação de Mulheres na Pesca tem lhe proporcionado oportunidades únicas. Tem participado em debates e discussões sobre a pesca, trocado experiências e conhecido outras realidades através dos intercâmbios realizados pela associação.

Para Lurdes Moniz é muito gratificante fazer parte da Ilhas em Rede. Sente-se concretizada e tem aprendido muito.

Texto e foto: Joana Medeiros

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Maria da Esperança nome de Salva-Vidas

Em homenagem às mulheres da pesca, o novo Salva-Vidas recebeu o nome Maria da Esperança, mulher lutadora, nascida em Rabo de Peixe, em Julho de 1930.

A 20 de Julho, ao lado das autoridades civis e militares, e a convite da Capitania do Porto de Ponta Delgada, alguns pescadores e numerosas mulheres ligadas à pesca (armadoras e/ou familiares de pescadores) viveram uns momentos tocantes. Nessa manhã foi baptizado o novo Salva-Vidas da Capitania: uma embarcação rápida e dotada da instrumentação necessária para se situar na primeira linha de uma operação de socorro. Algo, em suma, que pode realmente fazer a diferença entre a vida e a morte de quem busca no mar o seu sustento.

A cerimónia, simples e intensa, teve para as mulheres da pesca um significado especial: com grande sensibilidade, o Capitão do Porto, Capitão de Mar e Guerra João António da Cruz Rodrigues Gonçalves, pediu à Associação Ilhas em Rede que sugerisse o nome de uma mulher para o novo Salva-Vidas.

Não foi fácil, para a Associação, escolher um: tantos, afinal, seriam possíveis…. No dia-a-dia das gentes da pesca, para além das mulheres que participam directamente na faina, muitas outras praticam diariamente um heroísmo silencioso, feito de esforço, de solidariedade activa, de cuidados de todos os géneros para com os seus pais, filhos ou companheiros. Contudo, um nome foi sugerido: o novo Salva-Vidas chama-se Maria da Esperança, em honra de uma mulher cuja vida bem exemplifica a experiência colectiva das mulheres ligadas ao mar.

Nascida a 3 de Julho de 1930 em Rabo de Peixe, onde viveu toda a sua vida, casou com o pescador Henrique Oliveira Cabral e teve quinze filhos: os nove que estão vivos pertencem todos à fileira da pesca. Toda a vida desta senhora foi uma dádiva em prol da sua família e da sua comunidade. A atenção e a ternura que a notabilizaram como companheira, mãe e avó (deixou 53 netos que a recordam com grande saudade) não esgotaram pois as suas energias. Maria da Esperança, ao lado de Maria Natália Estrela Andrade, ainda viva, desempenhou um papel crucial nas lutas que, entre 1994 e 1995, levaram à conquista do subsídio de Mau Tempo (o antepassado do actual Fundo de Pesca), chegando a fazer parte da delegação que se encontrou com o então Presidente do Governo Regional, Dr. João Bosco Mota Amaral.

Maria da Esperança morreu em 2006, com setenta e seis anos, e é recordada com admiração. Os familiares emocionaram-se, quando a bandeira portuguesa que encobria o nome do barco foi retirada. Duas das suas filhas, Maria do Espírito Santo e Nélia, bem como uma nora, fizeram questão de vestir neste dia umas roupas de cerimónia que pertenceram à mãe, de quem lembravam a beleza e o aprumo: pois esta mulher, que esteve na frente de uma grande família e que foi sempre uma lutadora, era bela e gostava de roupas bonitas e de saltos altos: mais um modo de exprimir o seu amor à vida.

Como disse Lurdes Batista Lopes, Presidente de Ilhas em Rede, o nome do novo Salva-Vidas homenageia todas as mulheres da pesca: pois todas mantêm viva a esperança num mundo mais justo e mais digno para quem vive do perigoso trabalho do Mar.

Texto: Catia Benedetti

Foto: Joana Medeiros

sexta-feira, 8 de julho de 2011

3º Aniversário da Ilhas em Rede


A Associação de Mulheres da Pesca nos Açores – Ilhas em Rede (IR) assinala este mês de Julho, o seu terceiro aniversário.

Constituída formalmente em 8 de Julho de 2008 e com associadas em praticamente todas as ilhas, a IR tem como principal objectivo a valorização sócio - profissional das mulheres da pesca que trabalham nos Açores e surgiu no âmbito do projecto “A Mulher na Pesca” desenvolvido pela UMAR-Açores.

Em São Miguel a data será assinalada esta sexta-feira, dia 8 de Julho, com um lanche convívio, uma exposição de fotografias e o visionamento do documentário “Compassos de Mudança”. Todas estas actividades terão lugar no Centro Comunitário e de Juventude de Rabo de Peixe.

Relativamente à exposição intitulada “Mulheres semeando um outro mar” é composta por cerca de 40 fotografias e procura retratar e dar a conhecer o percurso das mulheres da pesca nos Açores durante a última década. As fotos documentam não só as várias tarefas por elas desempenhadas no sector e nas comunidades piscatórias, como também as diferentes iniciativas em que as mesmas têm participado, quer por iniciativa da UMAR - Açores quer de outras associações, como sejam encontros, congressos, workshops, entre outras. A exposição resulta de uma parceria entre a Ilhas em Rede, a UMAR e o Gabinete de Assessoria ao Jovem de Rabo de Peixe e poderá ser visitada até finais de Agosto, em horário normal de expediente.

Em relação ao filme “Compassos de Mudança” será exibido pelas 15h. Realizado por Maria Simões, este filme documenta uma Oficina de Teatro d@ Oprimid@, levada a cabo na Ribeira Quente, em finais do ano passado, e protagonizada por mulheres da pesca. A exibição doeste documentário está aberta ao público em geral.

Ainda no âmbito das celebrações do 3º aniversário da Ilhas em Rede, o mesmo documentário será exibido dia 23 de Julho em São Mateus e dia 29 na Biblioteca Pública da Horta, pelas 14 horas.

Texto e foto: Laurinda Sousa

terça-feira, 5 de julho de 2011

Pesca de pequena escala açoriana mais rentável, empregadora e ecológica


Defining scale in fisheries: Small versus large-scale fishing operations in the Azores”, “Definindo a escala na pesca: as operações de pesca de pequena versus grande escala nos Açores” é o título do estudo publicado recentemente numa conceituada revista científica internacional, a Fisheries Research, pelos investigadores do Departamento de Oceanografia e Pecas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç) Natacha Carvalho e Eduardo Isidro e por Gareth Edwards-Jonesb, da Escola de Ambiente, Recursos Naturais e Geografia da Bangor University, do Reino Unido.

Na investigação, onde são analisados dados de 10 anos de actividade pesqueira (entre 1995 e 2005), os autores constatam que a pesca de pequena escala, dita artesanal, nas ilhas tem aumentado de importância ao longo dos anos, tanto em termos de volume desembarcado, como no seu valor.

“A pequena pesca (embarcações até 12 metros) emprega mais pessoas, descarrega mais pescado que atinge maior valor por tonelada do que o da pesca de maior escala. A pesca de pequena escala também consume menos combustível e tem menos impacto nos mananciais e nos habitats”.

Neste artigo científico constata-se que “a pesca de pequena escala parece mais socialmente, economicamente e ambientalmente justa”.

Paradigma de desenvolvimento

“A frota de pesca açoriana, como a maioria das pescas a nível mundial, é caracterizada por um dualismo na forma de coexistência das operações de pequena e de grande escala competindo pelos mesmos recursos limitados, zonas de pesca e mercados”, denotam os investigadores que caracterizando a actividade artesanal com embarcações até 12 metros de comprimento, referem que a mesma é “dominada por pequenas, antigas, barcos de madeira de baixa potência, similar a embarcações do Mediterrâneo ou a frotas de pesca europeias menos desenvolvidas, tal como na Grécia, Estónia e na Córsega”.

Se o paradigma de desenvolvimento durante as décadas de 50 a 70 foi o de que “a progressão natural da pesca do mundo seria necessariamente encaminhada para o modo industrial”, em que o sector da pesca de pequena escala foi considerado ineficiente e em grande parte ignorado (…). No entanto, as operações de pesca artesanal sobreviveram e até prosperaram apesar da marginalização de longa duração”.

Pesca artesanal na agenda política

“Após mais de meio século de um forte imperativo de modernização económica que colocou a economia e a eficiência na agenda política para as pescas, a arena política está finalmente se tornando mais conducente para a manutenção da pesca artesanal. A noção de que a pequena pesca é provavelmente a nossa melhor opção para uma utilização sustentável dos recursos sustentáveis, juntando a maioria dos critérios necessários para uma política de pesca esclarecida em termos de emprego, distribuição de rendimento, consumo de energia e qualidade do produto, ganhou importância, com muitos estudos enfatizando o significado social, a diversidade cultural e a importância económica de sustentar este subsector”.

Bancos de pesca “limitados”

A Zona económica exclusiva (ZEE) dos Açores possui cerca de um milhão de km2 (948.439 km2) , com uma profundidade média de cerca de 3000 metros “mas apenas cerca de 7 por cento dessa área é inferior a 1500m de profundidade”, assim, denotam: “os potenciais bancos de pesca são limitados e essencialmente restritos às estreitas faixas de águas rasas ao redor das ilhas e nas proximidades de bancos e montes submarinos”.

“A pesca dos Açores têm sido tradicionalmente caracterizada como sendo artesanal (o uso das tradicionais, artes de pesca passivas e métodos de trabalho intensivo) e em pequena escala (tamanho da embarcação reduzida com área limitada de operação) e considerada como sustentável (proibição de engrenagens destrutivas, como redes de arrasto e redes de emalhar de fundo). Mais recentemente, a situação mudou com a exploração artesanal tendo sido sucessivamente substituídos por pesca comercial. Muitas das áreas de pesca estão sendo intensamente pescadas e várias populações de peixes demersais, como o goraz, parecem ser muito exploradas, em especial em montes submarinos nos Açores”.

Pesca captura 50 a 60 espécies

A actual pesca nos Açores, referem os investigadores, captura “entre 50 a 60 espécies das 500 existentes no ecossistema açoriano”.

Na revista “Fisheries Research” a faina artesanal açoriana que assenta “viagens de curta duração” resulta no fornecimento de “produtos frescos, que, em geral, obtêm preços mais elevados”.

Outra vantagem é o facto de “as quantidades relativamente baixas de peixe desembarcado nas operações de pequena escala também permitem que a tripulação dedique mais tempo à limpeza e preparação do pescado para uma apresentação mais favorável, buscando preços mais elevados”.

O estudo reconhece que embora na pesca de grande escala, os pescadores “parecem ganhar um pouco mais do que os de pequena escala, auferindo cerca de 700 euros por mês enquanto que na pequena escala pode-se ganhar cerca de 550 euros”, na pesca artesanal a mão de obra tem uma “oportunidade de um subsistência mais diversificada, com fontes adicionais de renda”, uma vez que é muito mais condicionada pelas condições climáticas que fazem-nos gastar menos dias no mar.

Gastos de combustível

Em termos de consumo total de combustível, o sector da pesca de pequena escala “aparece ser menos intensivo (137 litros por tonelada), consumindo quase metade do combustível por tonelada de pescado desembarcado pela pesca de grande escala (239 litros por tonelada).

Em suma; destaca o artigo científico: “o sector da pequena pesca açoriana também parece ser mais capaz de satisfazer vários dos objectivos da política formulada por vários países, tais como, a captura de peixes para consumo humano directo, proporcionar emprego e obter um maior valor económico de cada tonelada de pescado desembarcado”.

“O sector da pesca de pequena escala nos Açores, ao contrário de outros estudos obtêm mais capturas do que a pesca de larga escala, respondendo por 52 por cento do total de desembarques na região. Isto pode ser devido à natureza extensa do sector da pesca de pequena escala, que reúne 90 por cento da frota regional, sendo responsável por aproximadamente o mesmo valor no número de desembarques”.


Por: Humberta Augusto, in Jornal "A União" publicado dia 2 de Julho de 2011

Foto: Laurinda Sousa

Mulheres da Pesca iniciam formação em TIC


Numa parceria entre a UMAR-Açores (projecto Caminhos em Terra e no Mar) e a NORMA Açores, decorre desde o passado dia 4 de Julho, uma acção de formação em “Competências Básicas em Informática” direccionada para mulheres da pesca da ilha de São Miguel.

A formação, com duração de duas semanas, tem uma carga horária de 30 horas e decorre na sala de Informática do Centro Comunitário e de Juventude de Rabo de Peixe.

O objectivo principal da iniciativa é a promoção e aquisição de novas competências por parte destas mulheres, mais concretamente ao nível de conhecimentos sobre utilização básica de computadores e as principais aplicações informáticas: Windows, Word, Excel, Powerpoint e Internet.

No término do curso, as formandas deverão ser capazes de realizar uma sessão de trabalho com o computador, criar um texto simples, guardá-lo e imprimi-lo, pesquisar informação na Internet e receber/enviar mensagens por correio electrónico.

Texto e foto: Laurinda Sousa

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mulheres de São Mateus arrancam com projecto de Pesca -turismo


Arrancou esta semana, oficialmente, o projecto de “pesca turismo” desenvolvido pela Associação de Mulheres de Pescadores e Armadores da Ilha Terceira (AMPA).

A partir de agora, e por 70 euros, os interessados podem inscrever-se na sede da AMPA, junto ao porto de São Mateus, e experimentar durante três ou quatro horas a vida a bordo de um barco de pesca.

O pacote de Pesca-turismo inclui uma recepção na sede da associação, seguida de uma visita guiada ao porto de pescas e ao núcleo museológico ali existente. Segue-se uma explicação da história da pesca na localidade, os tipos de embarcações existentes, artes de pesca a utilizar na saída para o mar e espécies passíveis de captura.

Já a bordo, os pescadores vão “ensinar” a sua arte aos turistas que, se assim o entenderem, poderão experimentar colocar em pratica esses ensinamentos.

No regresso da faina, cada participante tem direito a levar consigo dois quilos do peixe capturado ou então levar meio quilo por pessoa a um de três restaurantes de São Mateus aderentes ao projecto onde podem pedir que o peixe seja preparado da maneira que preferem ou, mesmo, cozinhá-lo eles próprios.

Numa primeira fase, o projecto terá apenas uma embarcação a funcionar, estando previstas duas saídas diárias para o mar. A expectativa da associação é de que a Pesca-turismo venha a ser uma fonte de receita viável para os profissionais do mar e como tal outros pescadores de São Mateus possam aderir.

A legislação criada especificamente para o efeito pelo Governo Regional e regulada em Julho de 2009, permite que qualquer embarcação da frota pesqueira açoriana, com menos de 10 metros, se possa candidatar a operar neste mercado.

Recorde-se que a implementação desta actividade, pioneira nos Açores e a nível nacional, começou a ser formulada em 2003 durante a vigência do projecto “Mudança de Maré”, ao abrigo do programa Equal, e que na pratica funcionou como laboratório para umas quantas estratégias relacionadas com a modernização, reorientação e valorização das pescas na região.

Laurinda Sousa